Relato: Escalando por aí – Parte 2 – Cirque Of The Towers (por Cristiana e Ismael Voltolini)


Após nossa viagem para Bolívia, em julho de 2016, voltamos para casa, onde ficamos por um mês nos reorganizando, descansando e planejando a próxima viagem.

Em seguida pegamos o voo de Porto Alegre para São Francisco (EUA), em agosto de 2016, onde iniciaria nossa viagem de 45 dias. Ficamos uma noite na cidade e na manhã seguinte fomos encontrar nosso amigo Samir, que seguiria viagem conosco.

Compramos mantimentos e partimos para o estado de Wyoming, foram 2 dias na estrada. Estávamos nos direcionando para cordilheira Wind River Range. Fomos para o distrito de Pinedale, na Floresta Nacional Bridger Teton, onde se encontra o Cirque Of The Towers, um círculo de torres de granito com um lago de degelo em seu centro. Erguendo-se a um pouco mais de 3000msm (metros sobre o mar).

Cirque of de Towers visto de fora. Foto: Samir Thalji

Cirque of de Towers visto de dentro. Da direita para a esquerda há a Wolf Head Tower(bem na direita), depois a Overhanging Tower(central), depois a Sharks Nose (logo após). A última a esquerda é a Watchtowers(que parece ter dois cumes). Foto: Samir Thalji

Chegamos ao estacionamento do Big Sandy CampGroumd a noite, montamos acampamento e na manhã seguinte organizamos as mochilas.

Organização das mochilas no estacionamento do Big Sandy CampGroumd

A caminhada pela Big Sandy Trail tem aproximadamente 14km até um dos acampamentos base. É necessário carregar toda comida, equipamento de escalada e camping. Levamos mantimentos para 8 dias. Esta se inicia a uma altitude de aproximadamente 2,700msm. Os primeiros quilômetros são de pouca dificuldade, mas, ao longo do caminho, ele vai se tornando mais íngreme. Em alguns trechos é preciso atravessar campos de boulders com muitas pedras soltas.

Big Sandy Trail, aproximadamente 14km até o acampamento base

As paisagens são de tirar o fôlego! Essas cadeias de montanhas foram esculpidas a séculos pelas geleiras, são imensas torres de granito encravadas ao redor de lagos, cercadas por bosques, sendo esta localidade um dos territórios mais selvagens dos EUA, fora do Alaska .

Montamos acampamento próximo a um dos lagos e tratamos de armazenar bem nossas provisões. Este é um território de urso, ou seja, qualquer coisa que possua cheiro (comida, produtos de higiene…) os atrai, podendo destroçar as barracas, equipamentos e inclusive carros para ter uma comidinha diferente da oferecida pela natureza. Deixamos a nossa pendurada com barbantes uns 4m acima do chão em um grande bloco de rocha.

Mochilas protegidas dos ursos

Foto: Samir Thalji

Foto: Samir Thalji

No dia seguinte escalamos a Overhanging Tower (3707msm), para aclimatação. Aproximação difícil, atravessando dois campos de boulders extensos e subida íngreme com muita terra solta, o que nos tomou duas horas. Mas a escalada foi fácil, possibilitando ir em simultâneo, desfrute total.

Foto: Samir Thalji

Dia seguinte resolvemos entrar na Wolfs Head (3708msm). Escolhemos a via normal. Lindíssima linha , faz a Skyline de uma das agulhas. Após café reforçado, como sempre, iniciamos novamente a trilha que leva a laguna. Para chegar nela há de ganhar uns 200m sobre trepa blocos, as pernas já ficam bombamdo na própria trilha. Via crowdeada o que nos fez esperar por um tempo. Novamente, escalada em simultâneo no seu início. Escalamos por aproximadamente 7h e ainda faltavam mais umas 2h no ritmo em que estávamos, mais a caminhada de volta. Neste momento estava quase escurecendo, já havíamos passado o último crux, porém como faltava um bom pouco e iniciava a nevar, resolvemos baixar. Recém tínhamos passado por um ponto de abandono da via, o que nos ajudou. Pelo frio e vento intensos começou a função de botar casaco, anorak, toca, luva, segunda calça, buff. O Samir guiou os primeiros rapéis (já era noite). Foram algumas horas tensas de descida, na escuridão sem lua, sem comunicação verbal ou visual (pelo vento e topografia do descenso). O Samir fez até um pêndulo para conseguir chegar em uma das paradas. Utilizamos a manta térmica para nos protegermos do vento e da chuva. Chegamos na barraca as 3h da manhã, congelados e molhados. Nunca pensamos que um chá quente fosse ser tão bom. Estávamos sentados, no chão, vivos e aquecidos. Uma coisa é certa: a montanha é quem manda.

Da esquerda para direita: Samir, Ismael e Cristiana.

A rocha sempre de excelente qualidade. Um granitão abrasivo, que onde botava a sapata o pé ficava. Bah! Aderência perfeita, frio seco (sem suor), quase sem necessidade de magnésio. Tínhamos as condições perfeitas.

Foto: Samir Thalji

O dia seguinte choveu, inclusive com granizo. Isto, porém, não nos prejudicou, era dia de descanso.

No dia seguinte, somente eu e o Samir, voltamos a fazer a Wolf’s Head, porém atravessando a skyline no sentido inverso. Desta vez chegamos ao cume. Chegamos novamente já era noite na barraca.

Foto: Samir Thalji

No último dia subimos a Pingora. Mesma qualidade, escolhemos outra via tranquila. Intercalávamos as cordadas. Saíamos com o rack cheio e só parávamos quando faltavam poucas peças para acabar , com a intenção de montarmos uma parada. Isso por uns 300m direto até o cume a 3622msm.

Samir no cume da Pingora.

Lá no cume tivemos de baixar as pressas, para fugir de uma chuva com trovões que vinha ao longe, mas essa se dissipou antes de alcançar as torres.

Quando chegamos à base da agulha, ao fim da escalada, um outro escalador passou correndo, pedindo ajuda para um amigo que tinha sofrido uma queda e estava mal. Ajudamos no resgate inicial, depois apareceram uns 20 escaladores para ajudar. O cara foi levado, ainda bem, de helicóptero, mas foram necessárias 3 tentativas, com 3 helicópteros diferentes, para que se conseguisse erguer o ferido. Isto nos fez pensar no respeito, consciência e comprometimento que devemos ter ao ir a este tipo de ambiente, pois se em um país com tantos recursos e tradição de montanha foi difícil o resgate imaginem fora deste.

No dia seguinte arrumamos as coisas e baixamos. Estávamos acabados. Parecíamos uns mortos de fome querendo traçar qualquer comida que aparecesse. Dirigimos por mais 3 dias e chegamos ao famoso parque de Yosemite, na sua parte alta, conhecida como Tuolumne Meadows.

Foto: Samir Thalji

Aguardem a continuação desta aventura nos próximos relatos!!!

Confira o início desta aventura: Escalando por aí – Parte 1 – Bolívia

Cristiana Tedesco Detoni Voltolini

Bióloga, Instrutora de Yoga, praticante de escalada em rocha desde 2007 e de montanhismo desde 2011.

Ismael Francisco Voltolini

Cardiologista Intervencionista, Tenente em 2004, praticante de escalada em rocha desde 2007 e de montanhismo desde 2011.

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