Relato: Escalando por aí – Parte 1 – Bolívia (por Cristiana e Ismael Voltolini)


Laguna Glacial

Acredito que o sonho da maioria dos escaladores seja viajar para conhecer novos locais e estilos de escalada. Há muito tempo estávamos conversando sobre isso, planejando nosso destino, o tempo que levaria , enfim toda aquela logística que se faz antes de uma trip. Foi então que decidimos começar a tão sonhada viagem (devido a melhor estação – invernal) pela Bolívia. Começamos, então, a busca por informações. O primeiro plano era irmos de carro mas, devido a muitos relatos negativos, decidimos que o melhor seria ir de avião, compramos as passagens com saída no dia 27/06/16 e volta em 27/07/16.

Nosso voo partiu, de Porto Alegre, até a cidade de La Paz (3660 metros de altitude). Lá pretendíamos ficar por 20 dias nos aclimatando e após ir ao Vale do Condoriri para escalar o Pico Áustria (5350msm), Pico Tarija(5300 msm) e Pequeno Alpamayo (5425msm). Descobrimos por um site que havia escalada esportiva próximo ao centro da cidade. Estávamos decididos a passar esse tempo escalando em rocha antes de ir para a montanha, nosso objetivo principal.

Depois de uma certa dificuldade em conseguir alguma informação sobre o local da escalada esportiva, conseguimos chegar ao setor (possível ir de ônibus). Para nossa triste surpresa, o local era isolado e habitado por moradores de rua. Desistimos da escalada esportiva e iniciamos algumas caminhadas para melhor aclimatação. Os primeiros dias foram terríveis, fortes dores de cabeça e muito cansaço (devido a altitude). Apesar disso, fizemos caminhadas pela cidade, pelo Cerro Chacaltaya atingindo 5395 msm (metros sobre o mar). Um pouco abaixo de seu cume há uma antiga estação de esqui desativada pelo aquecimento global e derretimento da neve. Possível de ir com grupos de turismo ou por táxi.

La Paz é uma cidade muito peculiar, trânsito caótico, muito barulho, sujeira para todo lado e sem muitas opções para turismo. Cansados de ficar na cidade e sem escalar tomamos uma decisão, que com certeza não foi a melhor da viagem. Fomos conversar com um guia que nos levaria para o Huayna Potosy (6088 msm – na Cordilheira Real) encurtando a aclimatação para 7 dias. Antecipando nossos planos, sabíamos que essa escolha tinha grande chance de fracasso, mas mesmo assim decidimos arriscar.

Chegamos no campo base 4620 metros aprox. com um lindo dia de sol, muito calor, aquele dia perfeito, mas como tudo na vida isso não durou muito. Em certo ponto da caminhada o tempo fechou, começou a ventar muito e rapidamente a nevar. Aquele lindo dia logo se transformou no nosso pior pesadelo, estávamos vestindo roupas leves, na mochila estavam as roupas mais quentes. Quando conseguimos parar para trocar as luvas e o casaco, eu já estava congelada. O Ismael precisou me ajudar, estava com muito frio, tremendo muito, tossindo com dificuldade de respirar.

Chegamos ao campo base alto (5130 metros aprox.). Estava me sentindo muito mal, foi muito difícil me aquecer, com início de hipotermia. Fiquei enrolada em dois sacos de dormir e mais três cobertores que havia no local. Mesmo assim tremia e tossia muito, só me aqueci depois de tomar uma sopa quente. Dormimos algumas horas antes do ataque ao cume, nossos batimentos cardíacos não baixavam de 135 por minuto isso em repouso. Não conseguimos dormir quase nada, lá fora o vento estava muito forte, parecia que ia arrancar o telhado. O combinado era sair a 1h da manhã. Devido ao meu estado ficou decidido que eu não iria. O Ismael e o Andres decidiram ir apesar de as condições não serem as melhores (neve fofa até o tornozelo e temperatura de -15˚).

Após 50m de caminhada em neve, iniciaram por uma pendente com gretas e penitentes. Em uma hora de subida alcançaram o campo Argentino. Trecho relativamente plano de dá inicio a escalada final ao cume. Mas devido a má aclimatação ele também não atingiu o cume, baixando em segurança. Acreditamos que o erro foi de logística, mas uma boa experiência e aprendizado. O Huayna Potosí é uma montanha que impressiona por sua beleza, mas que também impõe respeito em seus visitantes.

De volta a cidade, com ainda mais 10 dias para aclimatação para o nosso objetivo inicial, fizemos alguns passeios pela Bolívia. Fomos ao Salar de Uyuni (maior planície de sal do mundo, com 10,582 quilômetros quadrados) , cidade de Copacabana (a beira do Lago Titicaca, na fronteira entre Bolívia e Peru), Tiwanaku (sítio arqueológico pré-colombiano), Vale da Lua, tudo isso de ônibus e muito barato. É, deveríamos ter feito isto antes.

Salar de Uyuni

Boulders no Salar

Agora sim acreditávamos estar preparados para o plano inicial. As dores de cabeça haviam diminuído muito. Novamente organizamos as mochilas e partimos mais humildes. Fomos até a Rinconada, até onde o carro consegue chegar. Escolhemos pelo trekking de 2 dias por vales e montanhas lindíssimas, ao invés de irmos direto para o campo base. Este nos levou primeiramente até a laguna Juri Khota e após ao Pico Áustria(não nevado), seguido pela baixada até o Vale do Condoriri, a beira da laguna Chiar Khota(4630msm).

Cume Áustria

Vale do Condoriri

Montamos acampamento e por volta da 1h da manhã partimos para a escalada que possui duas etapas. A primeira consistindo na escalada do . Esta começava por uma trilha de mais ou menos 1 hora e meia, seguida de ascensão em um campo gretado com pendente de 40˚ de inclinação. Subimos aproximadamente 1 hora pelo gelo(difícil e escorregadio), depois torna-se um pouco mais fácil prosseguindo por neve dura pelo resto do percurso.

Pico Tarija

Chegando ao cume inicia-se a segunda etapa. Neste momento estava exausta, precisei desistir em virtude da recuperação de infecção pulmonar iniciada na escalada do Huayna. O Ismael e o Andres seguiram, desescalando em rocha(um 2˚/3˚ grau) até chegar a uma crista que dá acesso a escalada do Pico Pequeno Alpamayo. Estava repleto de penitentes (formações no gelo que tornam a superfície completamente irregular, lembrando lâminas, mas que ajudam a frear na descida). Entretanto, nunca havia escalado em tais formações, o que o deixou bem apreensivo. Iniciaram pela rota normal, mas devido ao derretimento do gelo, pelo aquecimento global, tiveram de pegar um trecho da via diretíssima( cerca de 60 ˚ ), uns 200m abaixo do cume, atingindo-o após meia hora. Conseguindo contornar a grande greta que o impedia de prosseguir pela rota normal. Quando voltou e nos encontramos, iniciamos a baixada.

Pico Tarija

A descida foi quase tão exigente quanto a subida, era como um grande tobogã de gelo com uma greta gigante no final, assustador. Baixamos exaustos, até para respirar fundo doíam as costelas. Olhar aquelas gretas de frente, descendo pelas pendentes era psicologicamente desafiador para nós que não estávamos acostumados. Esse tipo de escalada exige do físico e do psicológico. Durante todo trajeto era preciso manter o foco, se concentrar para não cometer nenhum erro, a falta de oxigênio desgasta muito e o raciocínio fica mais lento, cada passo deve ser preciso. Chegamos são e salvos, famintos, cansados e felizes.

Desta jornada levamos boas experiências e muito respeito pela montanha, nossa maior conquista foi ter o privilégio de acordar mais um dia na natureza e voltar para casa vivos e prontos para próxima.

La montaña solo nos pertenece después de que hemos regresado al valle. Antes, somos nosotros los que pertenecemos a la montaña.”

Hans Kammerlander

Cristiana Tedesco Detoni Voltolini
Bióloga, Instrutora de Yoga, praticante de escalada em rocha desde 2007 e de montanhismo desde 2011.
Ismael Francisco Voltolini
Cardiologista Intervencionista, Tenente em 2004, praticante de escalada em rocha desde 2007 e de montanhismo desde 2011.

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